Tuesday, August 18, 2009

A depressão de Lars Von Trier


Texto do link abaixo:

http://bravonline.abril.uol.com.br/conteudo/cinema/terror-filmar-489094.shtml



Revista BRAVO! | Agosto/2009

... E o Terror de Filmar

O cineasta Lars von Trier enfrentou uma depressão enquanto rodava “Anticristo”. Ele diz que muito do que há no filme tem a ver com os fantasmas que o assombraram durante a doença

Por Thiago Stivaletti, de Cannes

O que faz um artista em depressão? Desiste de criar ou serve-se da crise para conceber não aquilo que previa, mas uma outra obra, que incorpore essa nova visão de mundo?

O dinamarquês Lars von Trier propôs no passado uma depuração do cinema com o Dogma 95 — uma série de "regras" para livrar o cinema dos rebuscamentos de linguagem. Seu novo filme, o terror Anticristo, que estreia neste mês no Brasil, teve o roteiro escrito no meio da crise de depressão que o cineasta sofreu há dois anos. Exímio roteirista, ele é o primeiro a admitir que, desta vez, não escreveu um bom roteiro. Em vez de conexões lógicas ou reflexão dramática, as cenas se juntavam sem razão, muitas vindas de sonhos que teve na infância ou durante a depressão.

No filme, um casal em luto pela perda do filho se retira para o "Éden", um chalé isolado na floresta, onde tenta curar suas feridas e reparar um casamento em dificuldade. Mas a natureza toma as rédeas, e as coisas só pioram. Anticristo está longe de ser um dos grandes filmes do diretor. As cenas vão do sublime (o prólogo em preto-e-branco) ao trash mais patético. Para o diretor, mais do que um filme, é uma vitória sobre sua própria crise.

Há dois anos, você passou por uma grave depressão. O que mudou em sua visão de mundo naquele período?

Fiquei extremamente autocentrado. Olhava de modo estranho para uma parede. Podia chorar durante uma hora. É como voltar a certo estado da infância.

E hoje você sabe o que o levou à depressão?

Sabe quando seu corpo enfrenta muita dor e acaba por desmaiar? O desmaio é como um tempo que o corpo pede para se recuperar. Acredito que a depressão seja o tempo que a sua psique pede para se recuperar e se reciclar, depois de um período de intensa ansiedade e estresse. E durante a depressão, quando você passa o dia todo deitado, parece que o cérebro libera algumas substâncias químicas que intensificam ainda mais esse estado, dificultando ainda mais a cura.

Em que momento da depressão você interrompeu a escritura do roteiro de Anticristo?

Quando meu estado ficou muito grave, eu tive que começar a fazer terapia. Nas sessões, eu começava a descrever o meu dia: "De manhã fiz isso, de tarde fiz aquilo...". Comecei a colocar as coisas em perspectiva, a fazer uma agenda mental de minhas ações, incluindo minhas horas de escrita e trabalho. Isso, de alguma forma, bloqueou minha criatividade. Lembro da fase de escalação de elenco para Anticristo: marquei encontro em Copenhague com Willem Dafoe e uma atriz inglesa que eu ainda não conhecia [Charlotte Gainsbourg] e não consegui dizer nada para eles. Minha mente era um branco total, eu só queria sair dali e ir chorar em outro lugar. Nesse momento, eu me perguntei: "Será que ainda sou capaz de fazer um filme?". Mas hoje esse filme existe. E não importa se ele funciona ou não, se ficou bom ou não. Tê-lo realizado já é uma vitória.

Então, a partir de agora, você acredita em terapia?

Não sei. A terapia que descrevo no filme é tratada de forma sarcástica [o marido interpretado por Willem Dafoe promove uma espécie de psicodrama com a própria esposa no meio da floresta, para ajudá-la a superar a dor da perda do filho, mas a mulher só piora]. Depois de ver o filme, meu psicólogo me mandou um pequeno bilhete em que dizia apenas: "Sim, sim...". [risos] Depois de Anticristo, vai ser difícil convencer as pessoas de que a terapia pode ajudar.

Ver o filme pronto foi como reviver a sua depressão e as limitações que você teve de encarar?

Não. Às vezes, eu me lembrava de alguns momentos de grande pressão que vivi no set. Mas, sobretudo, estou muito feliz de ter terminado Anticristo. Estar lá fisicamente foi o meu maior desafio, e eu o venci.

Ao lançar seu último filme, O Casamento de Rachel, o americano Jonathan Demme declarou-se um grande fã de seus filmes e do uso da câmera digital que você fez em Dançando no Escuro. Você teve alguma ideia particular sobre como filmar Anticristo?

Tive duas ideias distintas. A primeira era construir quadros monumentais, com muito trabalho de composição e detalhamento dentro de um mesmo plano. A segunda era filmar num estilo documentário, com câmera na mão. Mas logo encontrei problemas. Queria eu mesmo operar a câmera, mas minhas mãos começavam a tremer. É muito humilhante tentar fazer algo que você já fez antes e não conseguir. No fim, eu não tive muito controle sobre o lado técnico do filme. Por outro lado, me orgulho muito do trabalho que consegui fazer com os atores.

Por que, em Anticristo, você decidiu mostrar cenas de violência e mutilação genital, masculina e feminina?

Simplesmente achei que seria errado não mostrar. Sou um cineasta que acredita que devemos colocar na tela tudo o que pensamos. Sei que é doloroso ver, mas esse filme tem muito a ver com essas dores. Não dá para negar que existe algum componente de culpa no sexo. O mesmo vale para as mães: se observarmos ao redor, veremos muitas ações mesquinhas e malignas praticadas por elas com seus filhos. A maternidade não é unidimensional, não é só algo bom. Tem a ver com raiva e outros sentimentos menos nobres.

De onde vem esse estranho sentimento de culpa que você explora em todos os seus filmes?

Não sei muito bem de onde vem, não foi algo que assimilei dos meus pais... Não acho que eu sinta muita culpa na minha vida pessoal. Certamente não é uma culpa cristã, mas o fato de nascer em um país protestante já deve implicar certo número de culpas marcadas na minha identidade, mesmo que eu não seja um sujeito religioso.

Qual o sentido de Deus em seus filmes?

Nenhum. Deus não existe. Meus pais sempre foram ateus. Hoje, é como se eu pudesse devolver a Deus algumas coisas que aprendi sobre ele, e assim colocar minha vida em ordem.

Thiago Stivaletti é jornalista.

O FILME
Anticristo, de Lars von Trier. Com Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg. Estreia prevista para este mês.


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(Maioria dos negritos e todos os realces em vermelho são meus)


OU SEJA...

Lars n se preocupa no que deu, mas apenas em TER CONSEGUIDO. De certa forma é triste p um cara do seu calibre, de outra é instrutivo para quem está em depressão, conseguir fazer algo a que se propõe é uma vitória; de outra, ainda, uma constatação: TODOS estamos sujeitos. E, quando acontece, nada mais importa a não ser sair desse estado maldito.

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